DR. JOÃO RESPONDE
MÚSICA TAMBÉM É REMÉDIO
Minha amiga
Amanda Bianchi está internada. Jovem, bela, inteligente, singular, mas de carne
e osso, ela enfrenta a desagradável permanência num hospital. Apesar de estar
sendo bem tratada, avaliada e medicada com esmero, ela apresenta as limitações
de alguém deitado num leito hospitalar, afinal, paciente significa “ente
passivo” e enfermo quer dizer “sem firmeza”.
Consciente
de não atrapalhar a conduta dos colegas médicos que estão acompanhando Amanda,
ainda assim não me furtei em ajuda-la, tirando algumas dúvidas, conversando
sobre banalidades e, principalmente, usando uma arma terapêutica bastante
eficaz denominada música. Dispondo da facilidade do mundo “on line” e de saber
tocar piano, gravei e enviei algumas músicas de sua preferência.
Percebi um
efeito imediato no humor de Amanda, ativando aquele estado de espírito tão
necessário para reforçar nossas defesas orgânicas. A música desperta o ânimo,
aguça o intelecto e ativa as emoções. O som tem maior alcance na alma do que as
palavras. Uma bela melodia exercita o cérebro, fazendo com que ele esqueça,
temporariamente, as emoções nocivas, através da exaltação daquilo que suas
vibrações estão movendo no mundo da alma. O ritmo, por sua vez, ativa a
circulação sanguínea, cadencia a respiração e estimula a produção de cortisol,
essa substância moduladora do sistema de defesa do corpo. Aquele que se deleita
com acordes sonoros, desarma qualquer reação de alerta, esse mecanismo de luta
ou fuga a eventos estressantes. Existem pertinentes estudos mostrando o poder
da música de estimular o sistema nervoso a liberar serotonina e dopamina, essas
substâncias responsáveis pelo prazer e pelo humor. Todos nós sabemos que as
preferências musicais são amplamente subjetivas, por esse motivo, tratei que
afagar o coração musical de Amanda, com músicas que evocariam seu deleite.
Na maioria
dos casos as pessoas optam por “viajar” nos enlevos musicais, embalando esperanças,
beijando nostalgias e vertendo entusiasmos. Mas a música também convida à
reflexão. Perguntava meu sobrinho: Tio, quando a música acaba, para onde vão os
sons? Eu penso que o último som não é o final da música. Se a primeira nota
está ligada ao silêncio que vem antes, então a última deve estar ligada ao
silêncio que a segue. Já que estamos falando de saúde, observe como a música,
nesse aspecto, é um espelho da vida; ambas começam e terminam no nada. Quando
ouvimos uma melodia que agrada, é possível alcançar um estado de êxtase absoluto.
Isso de deve a gratificação da alma do ouvinte e a capacidade de poder dominar
a música como gostaríamos de controlar a vida. Como um som reproduzido está
mostrando uma qualidade humana, há uma sensação de morte com o final da música.
Entretanto, ao contrário do tempo que é indiferente a vontade do ser humano,
conseguimos transcender as emoções que a música nos proporciona, fazendo com
que ela renasça novamente. Quando escutamos uma música várias vezes, na verdade
estamos ressuscitando emoções, temperadas pela esperança, perdão, saudade, amor
e paixão.
É claro que
ninguém dentro de um hospital pensa em utilizar música para tratar infecções ou
praticar intervenções, mesmo que ela ative conexões entre neurônios, essenciais
nos processos de recuperação. Todavia, quem se restabelece num hospital
necessita de colo, carinho e calor humano. A música carrega todos esses elementos
dentro de seu âmago. Usando essa
mensageira, estarei colaborando com a tão almejada recuperação de Amanda, tanto
que acabo de receber dela o seguinte e-mail: “Bom dia, Doutor João. Ouvi sua
gravação a noite inteira. Ficou perfeita. Dormi bem melhor”.
JOÃO EVANGELISTA TEIXEIRA
LIMA é gastroenterologista e clínico geral.

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