terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Crônica enviada pelo Doutor João Evangelista Teixeira Lima... (FOTO: Meu primeiro violão com lembranças dos meus alunos)



DR. JOÃO RESPONDE

MÚSICA TAMBÉM É REMÉDIO
Minha amiga Amanda Bianchi está internada. Jovem, bela, inteligente, singular, mas de carne e osso, ela enfrenta a desagradável permanência num hospital. Apesar de estar sendo bem tratada, avaliada e medicada com esmero, ela apresenta as limitações de alguém deitado num leito hospitalar, afinal, paciente significa “ente passivo” e enfermo quer dizer “sem firmeza”.
Consciente de não atrapalhar a conduta dos colegas médicos que estão acompanhando Amanda, ainda assim não me furtei em ajuda-la, tirando algumas dúvidas, conversando sobre banalidades e, principalmente, usando uma arma terapêutica bastante eficaz denominada música. Dispondo da facilidade do mundo “on line” e de saber tocar piano, gravei e enviei algumas músicas de sua preferência.
Percebi um efeito imediato no humor de Amanda, ativando aquele estado de espírito tão necessário para reforçar nossas defesas orgânicas. A música desperta o ânimo, aguça o intelecto e ativa as emoções. O som tem maior alcance na alma do que as palavras. Uma bela melodia exercita o cérebro, fazendo com que ele esqueça, temporariamente, as emoções nocivas, através da exaltação daquilo que suas vibrações estão movendo no mundo da alma. O ritmo, por sua vez, ativa a circulação sanguínea, cadencia a respiração e estimula a produção de cortisol, essa substância moduladora do sistema de defesa do corpo. Aquele que se deleita com acordes sonoros, desarma qualquer reação de alerta, esse mecanismo de luta ou fuga a eventos estressantes. Existem pertinentes estudos mostrando o poder da música de estimular o sistema nervoso a liberar serotonina e dopamina, essas substâncias responsáveis pelo prazer e pelo humor. Todos nós sabemos que as preferências musicais são amplamente subjetivas, por esse motivo, tratei que afagar o coração musical de Amanda, com músicas que evocariam seu deleite.
Na maioria dos casos as pessoas optam por “viajar” nos enlevos musicais, embalando esperanças, beijando nostalgias e vertendo entusiasmos. Mas a música também convida à reflexão. Perguntava meu sobrinho: Tio, quando a música acaba, para onde vão os sons? Eu penso que o último som não é o final da música. Se a primeira nota está ligada ao silêncio que vem antes, então a última deve estar ligada ao silêncio que a segue. Já que estamos falando de saúde, observe como a música, nesse aspecto, é um espelho da vida; ambas começam e terminam no nada. Quando ouvimos uma melodia que agrada, é possível alcançar um estado de êxtase absoluto. Isso de deve a gratificação da alma do ouvinte e a capacidade de poder dominar a música como gostaríamos de controlar a vida. Como um som reproduzido está mostrando uma qualidade humana, há uma sensação de morte com o final da música. Entretanto, ao contrário do tempo que é indiferente a vontade do ser humano, conseguimos transcender as emoções que a música nos proporciona, fazendo com que ela renasça novamente. Quando escutamos uma música várias vezes, na verdade estamos ressuscitando emoções, temperadas pela esperança, perdão, saudade, amor e paixão.
É claro que ninguém dentro de um hospital pensa em utilizar música para tratar infecções ou praticar intervenções, mesmo que ela ative conexões entre neurônios, essenciais nos processos de recuperação. Todavia, quem se restabelece num hospital necessita de colo, carinho e calor humano. A música carrega todos esses elementos dentro de seu âmago.  Usando essa mensageira, estarei colaborando com a tão almejada recuperação de Amanda, tanto que acabo de receber dela o seguinte e-mail: “Bom dia, Doutor João. Ouvi sua gravação a noite inteira. Ficou perfeita. Dormi bem melhor”.
JOÃO EVANGELISTA TEIXEIRA LIMA é gastroenterologista e clínico geral.

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