terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Crônica enviada pelo Doutor João Evangelista Teixeira Lima...


DR. JOÃO RESPONDE

MEU CORAÇÃO SOPRA E MORDE

O coração não é um músculo apenas. Ele também tem coração. Ele ri, chora, espera e desespera. O coração é um órgão do tipo causa e efeito. Ele se alimenta da alma, enquanto bombeia o corpo, para dele também se nutrir. Quando a mente enfrenta suas batalhas, ele quase sai pela boca. Quando estamos tristes, ele se encolhe no peito. Quando estamos alegres, ele dá cambalhotas. Quando estamos apaixonados, ele ouve os ecos do paraíso. Quando estamos desiludidos, ele murcha, deixando escorrer sua seiva. Suicida-se o coração de quem não bate no ritmo do seu coração.
O coração trabalha para o corpo e para a alma. Ele é um órgão pragmático e sentimental. Instiga os médicos e inspira os poetas. Ele ama a lua, flerta com as estrelas, sonha com o amor. Ele come sonhos para nutrir paixões e bebe sangue para saciar a vida.
Com o coração na mão, minha paciente iniciou sua consulta: “Doutor, eu estou necessitando muito do auxílio do senhor”.
Em função de uma insuficiência aórtica, encontrada durante avaliação médica, sou considerada “cardíaca”. Isso não me preocupava, afinal eu não sentia nada. Entretanto, de um tempo pra cá, venho apresentando falta de ar, dor no peito e cansaço. Um cardiologista informou que meu caso será sanado apenas com cirurgia.
O senhor concorda com isso?
 Vamos fazer uma análise de sua doença, respondi. Você teve, durante a infância, alguma enfermidade que possa ter lesado a valva aórtica?
Não existe relato de doenças, como febre reumática, endocardite, traumatismos, artrite, intoxicações, entre outras. Alguns acham que meu problema é congênito, uma vez que tenho história de doença cardíaca na família. Por que passei tanto tempo assintomática e agora estou me sentindo mal?
A insuficiência aórtica é o fechamento incompleto da membrana que regula o fluxo sanguíneo que sai do coração, impedindo seu retorno, expliquei. O músculo cardíaco contrai e ejeta o sangue para nutrir o organismo. Quando essa valva funciona mal, o coração tem que contrair novamente para empurrar o sangue que voltou.  Essa atitude acaba comprometendo seu trabalho que, ao longo dos anos, vai perdendo a força, produzindo sintomas, como fadiga, dificuldade de respirar, desmaios e dor, que pioram com os esforços. Parte desses sintomas ocorre devida o aumento do consumo de oxigênio pelo coração ao contrair sua musculatura. Quando o paciente realiza atividade física, o corpo solicita mais esforço do coração e ele gasta mais energia para exercê-lo, gerando mal estar.
 Assustada, a paciente perguntou: Por que devo operar? 
Esse trabalho extra do coração acaba por comprometer o seu funcionamento. Chega um momento em que o doente sente sua vida limitada pelos sinais e sintomas e já não se importa mais em ser operado.
Essa cirurgia é perigosa, ela perguntou?
Toda operação praticada no coração tem riscos significativos. Mas quando realizada com êxito, a qualidade de vida do paciente melhora de forma surpreendente.
Medicamentos surtem efeito nos sintomas dessa doença?
Embora os sintomas apresentem alguma melhora, a insuficiência aórtica é uma patologia anatômica e por esse motivo exige correção cirúrgica. É sempre bom lembrar que a cirurgia deve ser realizada enquanto o coração ainda não está comprometido. Quando ele hipertrofia sua musculatura, tentando compensar a circulação do sangue, que insiste em retornar, o sucesso da intervenção cirúrgica acaba comprometido.
Preciso criar coragem e operar, disse a jovem antes de sair da sala. Mas não entendo como essa doença foi aparecer em mim?!
Talvez seja porque os sonhos que navegam no seu sangue estejam precisando de um empurrãozinho extra do seu coração.
JOÃO EVANGELISTA TEIXEIRA LIMA é gastroenterologista e clínico geral.

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