DR. JOÃO RESPONDE
MEU CORAÇÃO SOPRA E
MORDE
O coração
não é um músculo apenas. Ele também tem coração. Ele ri, chora, espera e
desespera. O coração é um órgão do tipo causa e efeito. Ele se alimenta da alma,
enquanto bombeia o corpo, para dele também se nutrir. Quando a mente enfrenta
suas batalhas, ele quase sai pela boca. Quando estamos tristes, ele se encolhe
no peito. Quando estamos alegres, ele dá cambalhotas. Quando estamos
apaixonados, ele ouve os ecos do paraíso. Quando estamos desiludidos, ele murcha,
deixando escorrer sua seiva. Suicida-se o coração de quem não bate no ritmo do
seu coração.
O coração
trabalha para o corpo e para a alma. Ele é um órgão pragmático e sentimental.
Instiga os médicos e inspira os poetas. Ele ama a lua, flerta com as estrelas,
sonha com o amor. Ele come sonhos para nutrir paixões e bebe sangue para saciar
a vida.
Com o
coração na mão, minha paciente iniciou sua consulta: “Doutor, eu estou
necessitando muito do auxílio do senhor”.
Em função de
uma insuficiência aórtica, encontrada durante avaliação médica, sou considerada
“cardíaca”. Isso não me preocupava, afinal eu não sentia nada. Entretanto, de
um tempo pra cá, venho apresentando falta de ar, dor no peito e cansaço. Um
cardiologista informou que meu caso será sanado apenas com cirurgia.
O senhor
concorda com isso?
Vamos fazer uma análise de sua doença, respondi.
Você teve, durante a infância, alguma enfermidade que possa ter lesado a valva
aórtica?
Não existe
relato de doenças, como febre reumática, endocardite, traumatismos, artrite,
intoxicações, entre outras. Alguns acham que meu problema é congênito, uma vez
que tenho história de doença cardíaca na família. Por que passei tanto tempo
assintomática e agora estou me sentindo mal?
A
insuficiência aórtica é o fechamento incompleto da membrana que regula o fluxo
sanguíneo que sai do coração, impedindo seu retorno, expliquei. O músculo
cardíaco contrai e ejeta o sangue para nutrir o organismo. Quando essa valva
funciona mal, o coração tem que contrair novamente para empurrar o sangue que
voltou. Essa atitude acaba comprometendo
seu trabalho que, ao longo dos anos, vai perdendo a força, produzindo sintomas,
como fadiga, dificuldade de respirar, desmaios e dor, que pioram com os
esforços. Parte desses sintomas ocorre devida o aumento do consumo de oxigênio
pelo coração ao contrair sua musculatura. Quando o paciente realiza atividade
física, o corpo solicita mais esforço do coração e ele gasta mais energia para
exercê-lo, gerando mal estar.
Assustada, a paciente perguntou: Por que devo
operar?
Esse
trabalho extra do coração acaba por comprometer o seu funcionamento. Chega um
momento em que o doente sente sua vida limitada pelos sinais e sintomas e já
não se importa mais em ser operado.
Essa
cirurgia é perigosa, ela perguntou?
Toda
operação praticada no coração tem riscos significativos. Mas quando realizada
com êxito, a qualidade de vida do paciente melhora de forma surpreendente.
Medicamentos
surtem efeito nos sintomas dessa doença?
Embora os
sintomas apresentem alguma melhora, a insuficiência aórtica é uma patologia
anatômica e por esse motivo exige correção cirúrgica. É sempre bom lembrar que
a cirurgia deve ser realizada enquanto o coração ainda não está comprometido.
Quando ele hipertrofia sua musculatura, tentando compensar a circulação do
sangue, que insiste em retornar, o sucesso da intervenção cirúrgica acaba comprometido.
Preciso
criar coragem e operar, disse a jovem antes de sair da sala. Mas não entendo
como essa doença foi aparecer em mim?!
Talvez seja
porque os sonhos que navegam no seu sangue estejam precisando de um
empurrãozinho extra do seu coração.
JOÃO EVANGELISTA TEIXEIRA
LIMA é gastroenterologista e clínico geral.

Nenhum comentário:
Postar um comentário