Um artista americano quebrou um vaso de cerâmica de U$ 1
milhão, exposto por artista japonês, em museu de Miami. Ele aproveitou a
divulgação do crime que cometera, para denunciar o desinteresse do governo e da
mídia local pela produção dos artistas da terra: “... não temos voz, e os
espaços nobres são sempre ocupados com obras de alienígenas, em transações com
curadorias estranhas.”
No passado, a tela “A Ronda” de Rembrandt recebeu várias
facadas na Holanda, e a “Monalisa”, uma pedrada em Paris. Por terem
visibilidade, serem únicas como uma vida, obras de arte, patrimônios da
humanidade, têm sido alvo de agressões como forma de chamar a atenção para
protestos políticos. No palácio do governo, em Vitória, a cabeça de uma estátua
rolou pela escadaria durante violenta manifestação pública.
Muitos artistas usam a própria obra para protestar. Hogarth
(séc. XVII - XVIII), Picasso (séc. XIX - XX), Banksy (séc. XXI), são notáveis
nesse propósito. Protestar é direito garantido pela Constituição que também
criou canais de comunicação do povo com o poder. Ela defende a liberdade de
expressão e ética na vida pública. Entretanto...
Falando sobre o dia a dia da Assembleia Legislativa, repórter
de tevê informa que nenhum cidadão ocupou a Tribuna do Povo naquele dia, e
comentou: “... Não há interesse. Quando alguém aparece o plenário fica vazio,
um ou dois deputados amigos do orador ouvem a história que já conhecem.”
Estive em várias audiências públicas em Câmaras e na Assembleia.
Quando conseguimos falar não tem quase ninguém para ouvir. Não há interesse em
nos escutar em lugar seguro, confortável e próprio para manifestações
ideológicas e providências institucionais. Políticos e a mídia ignoram as ações
pacíficas: “É notícia fria”. Um preconceito herdado da História Acadêmica onde
Napoleão é astro, Pasteur é coadjuvante e Gandhi faz figuração exótica.
No conto “1º de Maio”, de Mário de Andrade, um trabalhador, o
“35”, resolve comemorar o seu dia. Depois de seguidas desilusões andando pelo
centro de São Paulo ele chega à Estação da Luz, onde os jornais informaram que
políticos trabalhistas se encontrariam com o povo às 9 horas: “... Chegou
tarde. Quase nada tarde, eram apenas nove e quinze pois não havia mais nada,
não tinha aquela multidão que ele esperava, parecia tudo normal. Conhecia
alguns carregadores dali também e foi perguntar. Não, não tinham reparado nada,
de certo foi aquele grupinho que parou na porta da estação, tirando fotografia.
Aí outro carregador conferiu que eram os deputados sim, porque tinham tomado
aqueles dois sublimes automóveis oficiais”. Isto foi escrito há 80 anos.
Partidos políticos interessados exclusivamente na aquisição e
administração do seu quinhão do poder, formando uma casta e desprezando a
ideologia, não fazem oposição. Disputam as eleições sempre com mais do mesmo,
para garantir o próprio. Desprezam a própria identidade, ficam surdos e
fechados para cidadãos comuns que querem participar.
Se a democracia fosse exercitada nas escolas desde o primeiro
ano, incentivando-se grêmios, academias, clubes, associações, ela pareceria
natural.
Se os canais de comunicação povo-poder forem restaurados e a
participação de ambos os lados for encarada com responsabilidade, acredito que
as manifestações populares de rua, quando necessárias, transcorrerão mais
vigorosas e pacíficas. É só seguir a nossa Constituição, sem egoísmo, sem egocentrismo,
e com espírito público.
Kleber Galvêas é pintor e escritor.
Kleber Galvêas é pintor e escritor.

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