DR. JOÃO RESPONDE
AGINDO
DIANTE DE UM AFOGAMENTO
Quinta feira passada, às 17 horas, como sempre faço, estava correndo nas areias da Praia da Costa. Quase não havia ninguém, exceto uma senhora idosa, acompanhada por uma mãe, tendo uma criança de um ano, abraçada ao colo, e outra, de três anos, segurando em sua mão. O mar estava nervoso. As ondas batiam e voltavam, lambendo a areia com violência. Inocentemente, a senhora resolveu banhar o filho menor e enquanto o fazia, viu o outro rebento ser roubado e tragado para baixo de uma grande onda. Gritos de pavor ecoaram no ar. Imediatamente mergulhei na água, tentando encontrar o menino. Foram segundos de aflição. No mesmo instante em que o via, ele tornava a desaparecer. Subia para tomar fôlego e descia novamente, tentando resgata-lo. Esbarrava naquele vulto e, num desesperado vai e vem, tentava segura-lo. Já quase sem ar, consegui agarra-lo e puxar para a superfície. Saí da água dando socos nas costas dele e virando-o de cabeça para baixo. Ele puxou o ar com sofreguidão e vomitou grande quantidade de areia e água. Enquanto a mãe chamava o táxi para leva-lo ao hospital, agradeci a Deus e sorri para a vida, que se desvencilhou da morte e continuou com aquele guri. Entrando no táxi, ele me olhou de forma assustada, mas abraçado com a vida. Retornando para casa, eu não conseguia parar de chorar. Encontrei com algumas pessoas conhecidas que, ao me verem em prantos, perguntaram o que havia acontecido. Após ter relatado todo aquele drama, alguns disseram: Você deveria estar sorrindo, afinal salvou uma criança! Concordei com eles, afirmando que estava chorando por ter visto a face da morte, aquela que um dia havia roubado minha mãe, meu pai, minha amada tia, entre outros entes queridos. Enquanto ela puxava aquele garoto para baixo das ondas, eu lutava tentando vence-la. Sorri pela vida e chorei pelas vitórias anteriores da morte. Disse um dos circunstantes: Graças a Deus você estava passando no local, naquele momento. Sua atitude parece ter sido muita mais humanista do que pelo fato de ser um médico. O mar sempre foi objeto de paixão do ser humano. Mas seu coração pulsante, molhado e inquieto, não é nosso habitat natural. Não existe nada mais dramático, deprimente e assustador, do que um afogamento. A situação mostra-se tão desorientadora, que poucas são as pessoas capazes de administrarem, com equilíbrio e diligência, tal sinistro, podendo dessa forma ajudar salvar a vítima. Quando alguém se afoga, o quadro de asfixia provoca contração da glote e parada reflexa da respiração, em virtude da aspiração de líquidos para dentro dos pulmões. Nesse momento o afogado cessa de respirar. A possibilidade de salvar o afogado depende da duração dele dentro d água, da temperatura da mesma e da rapidez das atitudes de quem o salva. A respiração boca-a-boca deve ser iniciada imediatamente. Coloque a cabeça do paciente fletida para trás, peça para alguém que intercale, com massagem cardíaca, enquanto você insufla ar, até que seu tórax encha. Pratique essas manobras observando as reações da vítima. Quanto maior a ansiedade, menor o discernimento. O tempo conspira contra a vida. Conduza-o para um pronto socorro, pois voltando a respirar, tossir, expelir água e retornando a consciência, ainda assim existe o risco de complicações. Exige-se o máximo de prudência de quem vai tentar retirar alguém que esteja se afogando. Chegue junto dele pelas costas. Seu desespero poderá fazer com que não colabore, gerando, com isso, o risco dos dois se afogar. Jamais superestime sua capacidade de nadar. O mar é bravo e terno. Mesmo sendo o espelho do céu, ele pode refletir a imagem do inferno.
JOÃO
EVANGELISTA TEIXEIRA LIMA

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