quarta-feira, 2 de abril de 2014

SANTO PADRE ANCHIETA - Resgate, Laços e Passos - SAIBA MAIS Textos escritos em 2007 e 2010 pelo pintor KLEBER GALVÊAS!!


RESGATEM ANCHIETA

O Espírito Santo tem um Bem Cultural de Valor mantido  no Rio de Janeiro, por não termos pago seu resgate.
Em 1587, veio para o Brasil o pintor/padre jesuíta Belchior Paulo. Ele começou o trabalho de decoração de nossas igrejas em Pernambuco (5 anos), depois Bahia (5 anos), Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo. Foram 32 anos trabalhando para a formação do Brasil; destes, os últimos 16 dedicados exclusivamente à pintura. Todo o seu trabalho artístico foi destruído, raspado ou coberto por camada de tinta grosseira, a mando do Marquês de Pombal. Em todos os lugares onde trabalhou, pesquisadores buscam vestígios da sua obra: a mais antiga manifestação de pintura renascentista em solo americano.
“Os jesuítas se insurgiram contra a escravização dos índios, com o propósito de estabelecer no Brasil o governo temporal da Companhia de Jesus, esteado no elemento indígena. O que estorvava os interesses dos colonos e ao governo local criava graves dificuldades” (Reis Junior, 1944)
Quatro anos após vencer os Sete Povos das Missões, (que com o Tratado de Madri (1750) havia passado para o domínio português) Pombal expulsou os jesuítas do Brasil (1760) e mandou que fossem destruídas todas as pinturas de Belchior.
É suposto que nestas obras o elemento indígena figurasse em destaque: o grande herói nacional do momento era Arariboia (1565); dois filhos mestiços de João Ramalho haviam tombado como heróis, ao lado de Fernão de Sá, na última paliçada do Cricaré (1558); o Concilio de Trento (1563) havia reconhecido a existência da alma dos índios; os aldeamentos prosperavam; Anchieta havia publicado a Gramática da Língua Geral e o tupi/guarani era língua corrente; os jesuítas mesclavam elementos da cultura indígena aos rituais da igreja; Anchieta escrevia e encenava peças teatrais onde os índios dançavam, tocavam e atuavam. Fazia parte da ideologia jesuítica a valorização do nativo. Assim, o interesse pela obra de Belchior Paulo, além de estético é iconográfico. É possível que suas pinturas contenham elementos esclarecedores da relação índio/jesuíta, índio/colonizador, índio/império português.
Pesquisa buscando essas pinturas só obteve sucesso no ES. Na década de 40 foi encontrada em Anchieta uma tábua coberta por grossa camada de tinta, que raspada, revelou tratar-se do retrato do Padre Anchieta, com o bastão de andarilho na mão direita e na esquerda um rolo de papel com inscrições do poema à Virgem. Esta tábua foi encaminhada, quando do tombamento da igreja de Anchieta pelo IPHAN, para restauração por Edson Mota. Restaurada, eu a vi em 1986, em exposição no Museu Nacional de Belas Artes.
O padre/pintor Belchior Paulo foi um dos sacerdotes que confortaram Anchieta nos últimos dias (1597). Portanto esse é o único retrato do nosso taumaturgo feito por um contemporâneo dele.
O retorno dessa obra ao ES irá compor, com as telas de NS das Alegrias do Convento da Penha, e o painel dos Reis Magos em Nova Almeida, a tríade das pinturas mais antigas existentes nas Américas. Além de patrimônio cultural e valor monetário expressivo, bem posicionado para apreciação pública e divulgado seu retorno ao Espírito Santo, será elemento de atração turística.
Anchieta, com as mãos amarradas se ofereceu como refém aos Tamoios, para conseguir a paz. Compete aos capixabas colocar a mão no bolso, e pagar o resgate do seu precioso retrato.
  
              LAÇOS DE ANCHIETA               

Os passos de Anchieta são seguidos todos os anos no Espírito Santo, de Vitória à antiga Reritiba, desde 1998, preservando laços do pioneiro do teatro nacional com os capixabas.   
Barbados é um país-ilha, inabitado quando descoberto em 1535. Ganhou esse nome dos portugueses devido à grande quantidade de bromélias (tillandsia usneoides) que pendem como barbas das árvores. A ilha é um coral arborizado, onde não há nascente, lagoa ou riacho. Enriqueceu no séc. XVII produzindo açúcar com know-how pernambucano. Na sinagoga de Bridgetown, túmulos dos pioneiros mostram inscrições em português. Hoje, a riqueza do país é o turismo, e nisto pode nos ensinar. A disposição dos barbadianos para contar histórias, que vão de Piratas do Caribe, a George Washington, atraem muitos turistas.
Quem visita a ilha pode ter a impressão de que o primeiro presidente americano viveu ali muito tempo. Em publicações locais ele é sempre apresentado com 18 anos. Bem diferente do retrato na nota de U$ 1,00.
A casa onde se hospedou virou museu. O assoalho foi retirado; e a terra, peneirada. O material encontrado pode ser visto em estantes bem iluminadas. A praia que frequentou, o trajeto suposto do passeio a pé, o moinho que admirou, a casa de campo que visitou, tudo isso virou ... “de George Washington”.
A única viagem ao exterior feita por Washington, em toda sua vida, frutifica em Barbados. Ele era jovem e acompanhou um primo que buscava bons ares para tratar uma tuberculose. A sua permanência na ilha não durou dois meses, mas são tantas referências que temos a impressão de que foram anos. Como dizia meu avô mineiro: “eles sabem tirar leite de pedra”.
No mercado turístico, histórias e lendas valem tanto quanto palácios e catedrais. “Passos de Anchieta”, criado por Eustáquio Palhares e Lucas Izoton, que se consolidou com base no turismo de inspiração cultural, é um bom exemplo.
Anchieta, um dos homens mais cultos do séc. XVI, jesuíta, professor, cientista, escritor, teatrólogo, poliglota, gramático, humanista, chefe de guerra dos temiminós e santo da Igreja Católica, é uma figura extraordinária da nossa História, aliás, pródiga em personagens fascinantes. Ele escolheu o Espírito Santo para seus últimos anos. Na frente da igreja de Vila Velha encenou suas última peça. Quando morreu em Reritiba (Anchieta), 9 de junho de 1597, trouxeram-no para Vila Velha. Seu corpo, lavado no ribeiro cristalino da Cruz do Campo, colocado em rede forrada com folhas de patchuli, foi velado na primitiva igreja da Prainha.
Sua obra pode inspirar um Festival de Teatro Anchietano (pioneirismo de Paulo De Paula com a peça Anchieta Depoimento, 1976, Grupo Teatro da Barra), onde peças originais de Anchieta,  de seus contemporâneos, adaptações e livres interpretações, seriam apresentadas ao público.
Quem visita a Califórnia deve ir até Ashland, que fica ao norte. A vila parece um Oasis no meio de uma paisagem estéril e cinza. Na pracinha, quatro teatros disputam o público: é o Festival Elisabetano (Rainha inglesa contemporânea de Anchieta e Shakespeare). Ele acontece todos os anos, quando várias peças de Shakespeare, inspiradas nele, e de contemporâneos, são encenadas.
Ashland foi criada no séc. XX. Shakespeare e Elizabeth, séc. XVI, não poderiam prever a sua existência. Entretanto a vila americana, homenageando esses ingleses, respira teatro e prospera.
Anchieta ajudou a civilizar o Brasil; a fundar São Paulo e Rio, é figura nacional brilhante. Lembrando Barbados, nosso andarilho polivalente pode ser um “Washington” mais versátil, fomentando o turismo capixaba.
Kleber Galvêas, pintor.

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