DEMOCRACIA INTEGRAL
Votar é escolher, mas muitas vezes não há opção. Os partidos não
exercitam internamente a democracia, têm “donos” egoístas que impedem a
renovação. Apresentam sempre os mesmos candidatos.
É vergonhoso o panorama político em minha terra: partidos sem ideologia,
dirigentes sem identidade, políticos saltando de uma sigla para outra...
Vivemos uma campanha eleitoral em que a maioria parece buscar um emprego;
alguns candidatos são marionetes; outros, ungidos nos bastidores, encenam
disputas com “opositores laranja”; espionagem e “rabos presos” determinam
candidaturas e apoios.
O debate na TV entre os candidatos a governador revelou-se morno. Não
houve debate! Alguns fazem papel de “escada”, como no teatro, facilitando o
desempenho do ator principal. A atuação nessa farsa é recompensada com cargos
públicos. Os ingênuos são logo esquecidos, mas, sem vergonha, eles continuam a
engrossar, esperando as migalhas do próximo “banquete oficial”. Atores
aplicados da nossa opereta política, sem escrúpulo, usam essa farsa em
benefício próprio, esquecendo que política é a arte de servir ao povo.
Com estratégia maquiavélica, após seduzir quase todos os partidos
políticos, cooptar outros com cargos, induzir empresas a financiar determinadas
campanhas, espionar a sociedade e trair companheiros, consideram-se eleitos.
Isso pode ser “um tiro no pé.” Os eleitores conscientes, cada dia mais numerosos,
podem decidir que o crime político organizado não deve prosperar, reprovando os
concorrentes mais inescrupulosos respondendo: “Não mais dos mesmos.”
Nesta terra onde o candidato mais rico e egocêntrico está cercado por
políticos de todos os matizes (empresários, líderes de corporações,
sindicalistas, intelectuais, jornalistas, artistas, religiosos e engrossadores),
conta com a conivência dos acomodados,
que se recusam a subir em tamborete ou em ombro amigo para ver mais longe e
melhor. Quando estes são esclarecidos, reservados, não se manifestam e, assim,
são responsáveis pelas boas surpresas que as urnas podem nos oferecer.
O Estado, empresas e a política, nascidos da sociedade, não podem a ela
se sobrepor. Empresas devem ser incentivadas como propulsoras do progresso e
terem regras claras, estáveis, livres de entraves burocráticos e chicanas (que
propiciam barganhas eleitoreiras e achaques), para desenvolverem suas
atividades com lucro e responsabilidade social num ambiente próspero e
saudável, o que é do interesse de toda sociedade. Na política, a ética precisa
ser resgatada para o governo recuperar a autoridade. Esta, diferente do poder,
que pode ser comprado, tomado pela força ou obtido por fraude, é atributo do
político ético.
A indigência moral de vários candidatos aparece na patética imagem que
procuram construir de si mesmos em suas propagandas, insistindo no culto à
personalidade do chefe. O valor das ideias, do caráter, da história pessoal, da
disposição para o debate e para a aprendizagem, quase desapareceu.
O comportamento dos políticos capixabas me lembra as extintas mariposas
da Barra do Jucu. Quando aqui chegou a luz elétrica, elas ficavam a noite
inteira girando próximo das lâmpadas. As que chegavam muito perto logo
queimavam as asas e caíam. As outras, em entrega total ao brilho alheio, se
descuidavam da própria vida. Circulando a exaustão, em torno do foco
artificial, amanheciam estropiadas, espalhadas pelo chão, como os “amigos do pleito”, logo descartados após a
contagem dos votos.
E a saída? Investir em Educação Política incentivando grêmios e
associações estudantis para que a prática da democracia seja exercício precoce
de participação, liderança e fiscalização; recuperar a identidade ideológica
dos partidos, não realizando coligações absurdas, e adotar a “Democracia
Integral”: apresentando candidatos escolhidos democraticamente entre seus
pares.
Kleber Galvêas, pintor.
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