PEITO,
PRANCHAS E ONDAS DO BARRÃO – Kleber Galvêas
A Tribuna,
14/10/201
No inicio
dos anos 1950, morei no Flamengo, Rio de Janeiro. Vi nessa praia, que logo foi
aterrada, a garotada usar pranchinhas das escolas de natação para pegar
“jacaré” em marolas.
Morando
em Vila Velha, desde 1954, meu pai exibiu lá em casa um filme, em preto e
branco, que mostrava o “surf” praticado só por nobres da família real do Havaí.
Eles usavam como pranchas o que me pareceu serem segmentos de troncos de
palmeiras. Eu era criança, mas me lembro de que a ação era uma disputa em linha
reta, aproveitando ondas grandes que corriam entre duas ilhas próximas, e não
em direção à praia. Esse filme de 16 mm nos foi emprestado pela filmoteca
do Consulado Americano, que existia em Vitória.
Em 1958, o
Centro de Saúde, no Parque Moscoso, recebeu uma remessa de vacinas vindas dos
Estados Unidos. Eram pequenas ampolas individuais que chegaram acondicionadas
em furinhos de uma placa grossa (10 cm) de isopor. Foi a primeira vez que esse
material apareceu por aqui. Eram placas lisinhas. Quando esfregadas com a
mão, produziam ruído forte e agudo. Todos os que estavam por perto reclamavam
de “gastura”. Meu pai, Diretor do Cento de Saúde, após a vacinação, trouxe
essas embalagens descartadas para casa e nos levou para testá-las na Prainha
(que também foi logo aterrada). O material de baixíssima densidade flutuava
soberbamente na água, e todo mundo pedia para tocá-lo. Até então só a raiz do
ariticum do brejo, usada para fazer as boias das redes de espera dos pescadores
e a piteira, usada para afiar navalhas e construir as jangadas da molecada,
flutuavam bem em nossas águas.
A cor
branca do isopor chamava a atenção quando íamos à praia. Todos perguntavam o
que era e onde havíamos conseguido material tão interessante. Na Praia da Costa,
naquele tempo, disputávamos lugar na areia com bois e vacas, nós usávamos o
isopor para pegar as ondas “grandes”, em frente aos edifícios Sol e Mar e o
Guruçá. O “pegar jacaré de peito” foi o nosso esporte favorito nas ressacas do
mar durante muitos anos.
Por volta
de 1965, os irmãos Ramos, moradores da Praia da Costa, fizeram uma prancha oca
usando caibros e compensado. Como havia colaborado com piche e barbante para
calafetá-la, fui convidado para surfar com eles na Praia do Sol, hoje Ulé. A
prancha era enorme. Apoiada no fundo da carroceria de uma caminhonete, a ponta
seguia sobre a cabine. Havia cerca de seis moleques para uma prancha. Levávamos
várias quilhas de reserva, pregos e martelo. As quilhas eram feitas de tarugo e
compensado, fixadas com pregos. Embora não se fizessem manobras, quebravam ou
soltavam facilmente. Acidentes com os pregos eram muito comuns.
Havíamos
assistido ao longa “Maldosamente Ingênua”, com Sandra Dee, 1959, e esse
tinha sido nossa escola de surfe.
Pouco
tempo antes de embarcar para morar dois anos na Europa (1967-1968) fui
apresentado por Jorginho Neffa à primeira prancha de resina que vi. Quando
íamos experimentá-la na Praia do Sol, o seu fusca foi atropelado por um ônibus.
Morando
em Lisboa, próximo a Cascais e à Costa de Caparica, não vi ninguém surfar em
Portugal. Num passeio feito a Nazaré, vi ondas descomunais como uma
curiosidade. Jamais pensei que alguém pudesse surfar nelas.
Tendo
voltado para o Brasil em 1969, meu interesse voltou-se para a Faculdade. Em
1974 casei e vim morar na Barra do Jucu, motivado por experiência de um domingo
passado aqui com a família, quando tinha sete anos.
O surfe começava a ser praticado no
Barrão. Renatinho Shalders e alguns amigos guardavam suas pranchas modernas em
minha nova casa. Um dia resolvi experimentar. As remadas foram tão intensas
para chegar ao pico que, vencendo as ondas, não tive força para levantar a
cabeça e desisti.
Hoje sou pai de três surfistas:
Homero, Augusto e Alexandre. Sabem tudo sobre a história do surfe e das ondas
do Barrão.
Kleber Galvêas, pintor
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